As revelações da greve  escrito em terça 22 junho 2010 11:22

Blog de sempadrinhos :SEM PADRINHOS, As revelações da greve

Por Antemar Campos

1 - A divisão social interna do trabalho judiciário

Não há como negar que umas das “revelações” da greve é a divisão no seio da categoria dos trabalhadores públicos do judiciário baiano. De um lado, 2.346 funcionários que recebem adicional de função, e do outro, cerca de 8 mil trabalhadores estatutários. Os adicionais de função geram uma particularidade candente formando uma faixa de “trabalhadores assalariados de classe média alta” - próximos ao núcleo de poder do TJ-BA e concentrados na comarca da capital. Forma-se um quadro de recursos humanos  - defendido e estimulado pela cúpula do TJ-Ba – de funcionários(as) inseridos(as) numa determinada “divisão do trabalho judiciário”, formando o seguinte quadro: de um lado, a imensa maioria de trabalhadores(as) manuais da justiça baiana, implicados(as) numa relação de subalternidade interna, desprestigiados(as) pela cúpula do TJ-Ba e sem adicionais de função;  do outro lado, uma minoria de trabalhadores(as) “intelectuais” - que a cúpula do judiciário faz crer necessários para sua “administração” –, funcionários de “colarinho branco” dotados de prestígio e influência com a cúpula da justiça baiana. Eis o quadro gerado pela política(ou a falta dela) de recursos humanos dos últimos 20 anos. Os meandros de funcionamento administrativo do Tj-BA resistem ainda a pressão interna e externa de maior transparência e responsabilidade no trato da coisa pública.  A sociedade - e tampouco essa nova geração de trabalhadores públicos do judiciário baiano – sinalizam que não suportam mais o apadrinhamento, o clientelismo, o servilismo, o nepotismo trocado, o autoritarismo, os supersalários, a política de privilégios patrimonialistas,  e etc,etc, etc...

2 - A divisão socioterritorial

A greve revelou também  – a meu ver – uma curiosa clivagem socioterritorial da nossa categoria  – Tribunal vs. comarcas do interior. É latente e insofismável a diferença de status e de remuneração entre os trabalhadores judiciários das comarcas do interior e do Tribunal. A comarca da capital, por concentrar o quadro de pessoal e a estrutura do TJ-BA, absorve 90% dos adicionais de função, por isso, na capital a greve não empolgou. Na capital, conheço valorosos companheiros que percebem o adicional de função e aderiram à greve, e conheço outros tantos que não aderiram. A divisão entre trabalhadores(as) judiciários(as) da comarca do interior versus Tribunal, dificulta a unidade de ação da categoria. Precisamos combater a todo custo essa política divisionista estimulada pela administração do Tj-BA.  É imprescindível que a categoria formule propostas alternativas e atue com os instrumentos de luta ao seu alcance para acabar com essa divisão social do trabalho entre os trabalhadores públicos do judiciário baiano.

3 - A frustração com as direções sindicais

Não é de agora que o nosso sindicalismo  “taticista” e conciliador vive uma crise de “identidade” estrutural. Imerso em seu pragmatismo político de lutas econômicas corporativas, submerso nas práticas de gestão burocrática e personalista, mas, alimentado e cevado pelas pomposas verbas do imposto sindical, esse tipo de sindicalismo sobrevive e atuou fortemente nessa greve do judiciário. Uma ressalva:  não é fazer ou não fazer greves que determinar se um sindicato é possuidor do imaginário classista e utópico de outrora. Claro que por instinto de sobrevivência, as burocracias sindicais – de esquerda e direita – tenderam a aceitar os novos termos da luta de classe (ou de sua neutralização)...mas isso é uma outra discussão.

A greve revelou um  desencantamento por parte de alguns companheiros com nossas burocracias sindicais - que vacilaram e vacilam sobre quais os caminhos seguir e ao lado de quais servidores deve atuar. Chegou ao ponto de um jovem trabalhador do judiciário pegar o microfone na última assembléia e dizer, que apesar de imbuído de objetivos de mudanças no TJ-BA,  não achou ressonância nos sindicatos. Finalizando, fica a pergunta: a greve revelou que o sindicato existe para defender privilégios?

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2 comentário(s)

  • Escretilda

    Ter 22 Jun 2010 19:06

    Parece que não é "privilégio" só do TJ-BA essa "divisão socioterritorial". Um colega servidor do TJ-SP me informou que nessa última greve por lá tb ficou notório para quem estava atento a todas essas discrepâncias e anomalias, no mínimo, curiosas..anotem aí mais essa, porque eu já anotei cá do meu observatório.

  • cintia sodre

    Ter 22 Jun 2010 18:18

    Quero parabenizar o colega antemar campos pela analise precisa do resultado da greve.o colega faz uma analise dialetica da questão,esbanjando um raro conhecimento das categorias de analise Marxista.É de gente assim,preparada, diferenciada intelectualmente,que precisamos para liderar o movimento sindical dos trabalhadores do judiciário e não daquele pseudo intelectual AUGUSTO do SINTAJ, que de tanta empafia, já esta sendo chamado de CHICO BUARQUE.Fora zeze,fora Bete, greve já! pela devolução do meu
    salario de junho.Não ao desconto.


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